19 de agosto de 2010

Quando não precisa rimar

Na estação do metrô, um senhor, que estava sorrindo, esperava pela esposa.
Na saída do metrô, um menino, também sorrindo, esperava com o pai e o cachorro pela mulher daquela família.
Na rua um homem deficiente, que conheço de vista, andava de mãos dadas com sua companheira.

Tudo isso me tocou fundo...
Fiz desejos pras estrelas que acompanhavam cada encontro que meu olhar descobria.

Sei que não escrevi um poema.
Mas fiquei feliz por ter visto poesia no dia-a-dia.

16 de julho de 2010

24 de junho de 2010

Fatos

Hoje me desentendi com um velho de 70 anos que pensa que idade significa alguma coisa. Discordo. Conheço muitos idosos imbecis, mal-educados e que não possuem senso algum. Afinal, envelhecer é um processo biológico e não pedagógico. E mau-caráter envelhece também, não pensem que não...

Não quer dizer que não gosto de velhos e que não tenha nada a aprender com eles, mas que isso não é certificado de nada. Todo mundo envelhece, até canalha.

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Depois no metrô a cena triste. Um homem com o pé inchado e sangrando indo para o hospital, com sua esposa, para ser internado. Ela chorava, com medo de não haver vaga para ele. Tinha diabetes e corria risco de ter a perna amputada. A esposa chorava, claro, e dizia: tenho medo, estou muito nervosa, ele é muito bom pra mim.

Eu gosto do termo "muito bom pra mim" - me parece um "eu te amo e demonstro com atitutes". Tive vontade de chorar com ela.

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Depois na rua passou por mim uma mulher com o braço magro, com uma tala, puxando um carrinho, praticamente se arrastando de tanto esforço que fazia. Fiquei triste de novo...

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No fundo está todo mundo se arrastando nesse mundo cão. Difícil não se afetar.

21 de junho de 2010

Sem juras

Conheci um casal de estranha sintonia:

Ele era dono da geladeira,
ela do fogão,
para se no caso de um dia haver separação,
não ter erro, já está feita a divisão.

Partilha de bens preventiva
é precaução demais pro meu gosto.
Desconfio de amantes precavidos...
Que é o amor se não esta aventura
de se estapear pela mobília, findada a relação?

Sei não...
Desconfio disto, me cheira a contrato.
Me cheira a pedido prévio de separação.

Vejo validade na atitude do casal
Esse amor um dia estraga
ou vira companhia para não passar a vida sozinho
pagando inúteis prestações.

18 de junho de 2010

Por um Saramago vivo

Eu não quero falar da morte dele. Não quero falar de morte em geral. Neste momento acho que seria mais útil cada blog publicar um pensamento de Saramago preferido, o que acham?
Assim faríamos brilhar mais sua luz magnífica que tivemos a honra de ter em nossa geração.

Bom, aqui vai um dos meus:

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter,ter deve ser a pior maneira de gostar"
José Saramago.

Entre nesta corrente e publique também algo do mestre.

13 de junho de 2010

Poesia é aula!

Na primeira semana de Junho dei aula (junto com Geovana Pires, Daniel Rolim e Elisa Lucinda) em um Workshop voltado para professores da rede pública de ensino. Estes Workshops já vem acontecendo na Casa Poema / Escola Lucinda desde o fim do ano passado e são muito enriquecedores, pois fazem parte de uma idéia que a Elisa tinha desde sempre: levar a poesia para a sala de aula das escolas de uma outra maneira.

O que posso dizer é que dando aulas sempre aprendo. Clichê? Acho que não. Ainda mais os meus alunos sendo professores com anos de magistério, creio que aprendi mais do que ensinei. Ensinei o que sei e aprendi com a experiência deles. Tudo, independente de onde venha o aluno, é sempre um processo de aprendizado. Ainda que coloquemos o nome de aluno e o nome de professor nas coisas.

Bem... Esta experiência bonita foi registrada atentamente pelo professor+aluno Edmilson. Registrada e editada! Abaixo vocês conferem o resultado. Eu fiquei encantado com o vídeo, espero que vocês também.

1 de junho de 2010

COTIDIANO CRETINO - Uma breve história sobre o nada contada de forma não-linear

{ prefácil }

Eu não sei como começar um livro. Não sei o que quero dizer por não saber o que querem ouvir. Mas fizeram-me ouvir e ver coisas que eu não gostaria tantas vezes que, tanto faz ou tanto fez, seria melhor eu continuar estas palavras e dar cabo do peso que insiste em residir na minha memória e nos meus sentimentos, tornando-o assim um livro. Tornando algo que eu possa chamar de obra e que tendo orgulho disto ou não, é meu.

[.01] . Uma esquina fria


O picolé naquela esquina era bem barato, havia uma promoção na qual podiam-se comprar duas unidades por um preço barato. E ia sempre lá com sua simplicidade e normalidade constante saboreá-los. Conhecia todos os sabores. E quando ia só, percebia que sempre ia só; imaginava o picolé como sua neve possível e a sorveteria como um Himalaia imaginário, pois embaixo dos 40 graus que a cidade constantemente lhe oferecia raramente era dado a imaginar coisas geladas.

Assim como a cidade, o seu corpo fervia e o suor que ebulia daquele ser era um choro quase que maternal por ter nascido numa cidade que tudo dá e tudo tira. Tinha o corpo bastante moreno devido ao sol, não em excesso, mas na constância que permanecia para a normalidade de tudo.

“Eu choro sempre”, dizia. “Choro, mas ninguém vê minhas lágrimas, pois nesta cidade o sol as seca antes que corram rosto abaixo”. Esta cidade maldita e bendita, este povo maldito e bendito, a imperfeição e o perfeito convivendo dia-a-dia para confundir-me eternamente.

Meus amigos são inimigos com os quais ainda não me desentendi. Meus familiares são probabilidades matemáticas com as quais terei que conviver durante toda minha existência. Sou um código genético que se concluiu perfeitamente, ao menos para a ciência. Sou um produto final, resultado de uma química genética perfeita. Sou o mais perfeito e imperfeito de todos os humanos. Sou igual e diferente de todos. Tenho sonhos, quero realizá-los, tenho desejos, quero senti-los, tenho mamilos, tenho pênis, tenho corpo, zona erógena, tenho gozo e quando gozo rapidamente me esqueço de tudo.

Minhas opiniões não são aceitas, meus livros não são escritos, meus talentos não reconhecem, meus amigos se drogam, tenho sonhos secretos, tenho fantasias sexuais, tenho vontade de comprar um tênis, aquela camisa, aquele carro... Quero tudo e todos ao mesmo tempo aqui em mim. Passo pela praia e vejo a multidão, e me vejo perdendo tudo aquilo e ganhando toda aquela visão e experiência. Sou como um alguém fora de si mesmo. Ando por ai a esmo, vejo a chuva, piso na lama, sou ordinário como qualquer um e constantemente me sinto inferior. O que me fere eu não revelo, o que eu quero não possuo, o que possuo não me enche os olhos.
Deixem-me nesta cidade mais e mais e mais, pois assim eu posso conseguir finalmente tudo o que eu quero. Dêem-me paz.

E a música que toca dá ritmo a tudo agora. Eu paro, respiro e sinto a música. É bonita, depressiva e lenta, mas eu gosto. Lá fora, nas janelas da vida, ouço risos, gritarias e todo tipo de interjeição. Aqui, no meu quarto e dentro de mim, sinto apenas este vazio. Onde estão minhas felicidades? Onde estão os beijos que eu não roubei? Onde está quem ia roubar meus beijos?

E a música que toca é boa. Imagino minha vida como uma peça ou um filme de cinema, mas esse não sou eu, eu não sou o protagonista da minha vida. Vivo fora de mim e o que realmente gostaria de fazer, não faço.

Estou pouco a pouco aprendendo a não ter sentimentos, a sonhar pequeno, a perder as esperanças. Estou pouco a pouco morrendo enquanto a vida não anda. A vida desanda mais do que anda. O que querem saber de mim? Querem controlar-me completamente para que então eu me torne mais um no meio desta multidão cretina e reprimida? Deixem a menina em paz, se ela beija todos, todos a beijam e são felizes. Os que não o fazem e só olham, olham com desprezo, mas no fundo lutam para não aceitar a realidade possível e verdadeira do outro.

Quando escrevo, pareço que estou dopado. Dopo-me realmente de uma inexatidão por não saber o que eu estou falando e não ter fios de meada. Tudo é mesmo sem pé nem cabeça quando se fala disso, porque querer um roteiro linear da vida e das pessoas?

Ah! Mas o picolé... O de açaí é ruim. Também não é bom o de chocolate com menta. Também é bom o sundae, mas a casquinha com uma bola é muito cara. Ah, mas dois picolés saem em conta contando que tudo isto é apenas passatempo, pano de fundo para uma complicação ainda maior.

Não me entendem. Tá bom, eu aceito ser não-aceito. Alguém me entende, certamente, já que eu também me entendo. Não compreendo a mim e me compreendo como ninguém. Querem pés e cabeças nas histórias. São memórias. O dia da alegria eu lembro bem, o dia seguinte foi cinza e chuvoso, chuva fina. As primeiras decepções, os beijos mal dados, os beijos errados, os gostos dos beijos bons e as boas sensações.

Eu não sei como escrever um livro de ficção, de romance, de drama, de comédia, ou do que for, só sei escrever memórias, histórias que já vivi ou que podia viver baseando-me na minha possibilidade. Não quero voar longe, escrever sobre os japoneses sem nunca ter saído do Brasil. Quero estar cada vez mais aqui, na realidade e no calor desta cidade que tanto me bronzeia quanto me sufoca.

10 de maio de 2010

Dia D!

decerto deviam
deveras! deviam o dinheiro delas
um dia, deram dura decisão de delimitar uma determinação

dá o dinheiro tal data
depois de decidido
deram-se por débeis, deixaram a dívida das donas

não deves? diziam
devo!
então dá cá meu dindin, diabos!

deram nada
ai, as donas, discaram pruns doidos para darem tiros
foram dez
deu no que deu

8 de maio de 2010

A troca só tem graça quando é de graça

Este poema abaixo ganhei da amiga Carla Vergara, que tem o lindo blog - Místicas Femininas - e está prestes a publicar suas coisas, para bem geral da nação. O poema que ela me fez foi uma gentileza, uma troca de afagos a qual os poetas se permitem.

Poeta de mão cheia
Peito aberto
Papo reto
Entre palavras que fazem curvas no meu coração.

Voz forte
É vento norte ao dizer poesias
É mastro
Macho
Homem-grande-criança
É maduro e, ao mesmo tempo, esperança.

David chora, comemora
Ri, extrapola
Elabora a cada verso escrito
Revela de um jeito lindo sua face oculta
Sua metade aberta
Seu gomo
Seu caldo
Seu bagaço.

Tudo é insumo pra fazer suco
Neste mundo que se chama dia-a-dia
Tudo é verso de fazer palavras
Neste universo que é a poesia.

2 de maio de 2010

SMS ou SOS?

Helena estava triste, naqueles dias em que questiona o inquestionável. Vejamos bem: não que nada seja imutável, mas imaginemos que neste caso sim, o amor de Thomaz era inegável, irrevogável, definitivo, quase matemática: era ciência exata! Entretanto, colocou-se o final-de-semana inteiro aflita pela falta de contato com o namorado. Por viverem distante, qualquer faísca é clarão, dizia. Mas ele não ligou, não mandou email, não apareceu no msn, skype, nada..nada... E ela entrou na roda sem fim da imaginação inútil que só traz sofrimento e roteiros de filme B. Sabia que ele estaria ocupado, sem internet, sem tempo para entrar em contato. O que não significa que não pensou nela, muito pelo contrário, já havia avisado do imediato hiato que se faria durante esses dias, em que ele ocuparia-se de resolver uns problemas que lhe deixavam, literalmente, sem conexão. Só restou-lhe o celular.

Atordida, tendo de conectar-se consigo mesma, verificou que o sinal mais forte nunca é o wi-fi da casa, mas sim seus objetivos permanentes, sua meta, seu trajeto certeiro no futuro e tentou fazer disso força que iluminasse esse caminho escuro que percorria. De nada adiantou. Thomaz já é parte integrante disso tudo. Quando não vem, não dá pra disfarçar capricho nos estudos, beleza na vida, calma na pressa. Não dá. Necessita da voz, da imagem, de um Olá! que seja.

Martelou em sua consciência triste e saudosa uma só afirmativa: um sms que fosse, e eu estaria feliz. Thomaz não mandou.

Fim do dia. Helena vai dormir, cansou de fazer e desfazer logins... O tempo é o da espera, por isso desespera. Eis que no último segundo surge uma possibilidade. Lê no anúncio virtual: Ele te ama de verdade? Saiba o calor da sua paixão enviando uma SMS para 00365 por apenas 0,31 centavos.

Riu e pensou: é, talvez um sms não fosse suficiente, por isso não importa em não ter recebido. Por isso, não seria patética de enviar a este do anúncio.

Concluiu: meu amor não cabe em poucos caracteres.
E foi dormir feliz esperando o próximo contato.