6 de fevereiro de 2010

No meio do email

No meio da mensagem tinha um vírus
Tinha um vírus no meio da mensagem
Tinha um vírus
No meio da mensagem tinha um vírus.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas conexões discadas.
Nunca me esquecerei que no meio da mensagem
tinha um vírus
Tinha um vírus no meio da mensagem
no meio da mensagem tinha um vírus.

(da série: NerdPoética)

3 de fevereiro de 2010

Prontofalei!

Sei que minha escrita
revela o que nem o revelado quer saber
O que nem eu soube com olhos, ver
Porque as palavras vem de um acontecer
mágico e único

Sei que minha escrita
Torna nosso caso, casa esquisita
Ela te põe na pista,
nos entrega sem ser disque-denúncia,
permeira todos os idiomas,
não precisa de retidao na pronúncia:
É o que ela conta que importa

Sei que minha escrita
é escrota, dedo-duro...
Mas relacionando-se comigo
é bom que já fique avisado:
Um dia, eu vou contar pra todo mundo!

26 de janeiro de 2010

Mc Donalds

quando tudo acabou
suspendi a possibilidade da entrega
hoje só como comida caseira,
ingredientes escolhidos a dedo,
preparada com mãos de amor.

Nosso reencontro de corpos
hoje seria apenas um fast-foda
muita gordura, pouca saúde
e arrependimento porque teu pau
é bonito mas faz mal

não peça pelo número
pois no fim o sentimento é o que fica
quebra-se o fálico mito
não, não era amor de pica

22 de janeiro de 2010

Santa!

Fazia-se de santa, culta e fina.
Cabelos bem escovados, jeito manso de falar, andar esguio e calmo...
Mas quando abria a boca não tinha muito a acrescentar, apesar de falar português corretamente.

Fora educada em bons colégios, religiosos, e portanto carregava consigo a displicente malícia das mulheres que quando meninas enganaram freiras.
Sua serenidade oratória era entremeada de falsidades que adoramos, mas que nunca me enganou. Chamava os subalternos de fofinhoooo, fofinhaaaa... Assim mesmo, esticando as vogais de maneira irritante...

Tinha acessos de bulimia e jantava tomate com carne de soja por diversas noites. Tinha medo de engordar, medo de envelhecer, medo de deixar de ser bailarina; coisa que nunca fora, mas que o truque da aparência magra levava aos descuidados a crer. E vinha ela com seu robe fino sentar-se a mesa para fingir simpatia quando o que mais fazia era bisbilhotar os funcionários que jantavam.
Homens? Matou 3. Uma mulher Mach3. O primeiro ela tchan, o segundo ela tchum e o terceiro ela tchan tchan tchan tchan. E desde então levava sua vida pacata em Copacabana.
Até que um dia foi ficando doente. Já não comia, já não atinava pras coisas, já não tinha mais máscaras para segurar o peso da bailarina que sempre sonhou ser, mas que nunca apresentou descente par de deux. Que nunca fez um correto deboulê.
Foi secando, secando, secando até desaparecer e nos darem a notícia da morte.
Eu me lembro, tinha acabado de tomar um café e comer uma torta deliciosa quando recebi a informação pelo telefone e até hoje não sei se o telefonema era uma forma torta e indireta de uma tentativa de culpa por estarmos nos divertindo enquanto outros sofriam.

Depois diagnosticaram maléfica doença como causa mortis. Ficamos todos chocados ao saber que não morrera de bulimia coisa alguma. Morreu de fingir quem não era.

Ontem fiquei sabendo: ela chupava taxistas no cair da tarde.

16 de dezembro de 2009

Que venha 2010!

Bom, mais um ano vai chegando ao seu fim e como saldo sempre temos a vida e os acontecimentos não é mesmo? Todo mundo faz seus balanços, empresas que somos de nós mesmos, para reavaliar e reestruturar tudo para o próximo ano. A palavra mesmo diz ANO NOVO, é novo, inédito, virgem, sem vícios, sem medos, mais inteligente (posto que já tem bagagem dos anos anteriores), mais maduro, esperançoso. Se vai ser mais feliz, mais triste, melhor, pior, tudo isso são divagações bobas. Bom mesmo é viver um dia por vez e viver o momento.

Filosófico demais né? Mas tá... Eu ainda postarei até o fim-do-ano, mas por acaso achei aqui um poema que fiz pro meu pai (que está doente de Parkinson há 8 anos) e escrevi para ele. Ele ainda está vivo, porém como a doença altera muito a pessoa, tenho hoje um pai incapaz pra muitas coisas, infelizmente, portanto o poema termina como se ele não estivesse mais aqui. Bom, a poesia está aqui pra isso, pra lavarmos a alma. Pois lá vai:

O meu Papai Noel - Data: 24/12/2006

Porque em algum plano pedi pra que foste parte do que eu sou
Partícula criadora, metade de mim
Porque sem ti nada seria

Porque em algum cruzamento de destino eu fui nascer assim, teu filho
Porque entre guerras tu me salvaste, Xangô que és
Porque entre gritos e balburdias me fizeste um homem, do qual me orgulho ser

Porque entre confusões e bebidas, foi forte o suficiente pra vencer o vício
Porque entre falsas impressões e incompreensões de um filho, hoje te perdôo e mais que aceito e chamo de pai, chamo de meu criador, gerador, meu possível Deus

E se é assim, o guerreiro das batalhas simples da vida
O vencedor que impediu tantas injustiças e eu estive lá e vi

Porque cais no vão do sofrimento e hoje, sem poder correr atrás de mim para gritar meu nome e dar educação, mesmo que à sua maneira, és apenas um velho guerreiro doente sentado aguardando os desígnios maiores?

Falta-me compreensão com Deus
E que isso não seja pecado
É Natal e estou desolado pela tragédia da vida

O meu herói
O que me deu escola, educação, amor, carinho, afeto e comida
Está vencido
E eu, filho ferido pelas faíscas dos acontecimentos
Choro, choro e choro...

Não posso aceitar um Deus que pune ou que resolve as coisas dessa maneira
Hoje, na noite de Natal eu quero que ressuscite um Deus bom
Não quero me entupir de comida enquanto vejo um menino de cinco anos pedindo dinheiro na véspera do renascimento desse Deus falido

Eu só queria o grito
O saco de doces quando voltava de São Paulo
O monstro “Aúra” que ficou na brincadeira da piscina da casa em que cresci
Eu só queria o pai aqui, comprando a ceia de última hora
E fazendo o natal do seu jeito.

9 de dezembro de 2009

Enquanto matéria

Estou no paradoxo do fim do amor.
Que amor? Sei lá, aquele que a gente
inventou sob as luzes da dancefloor

Sob as batidas do DJ
Sob as desculpas que eu inventei pra cidade inteira
Falando que você falou cada besteira
Só aguardando a execução final das promessas

Estou no paradoxo de me perguntar
Quem eu sou
Quem foi você
Pra onde vou

Sob o sol escaldante
Sob a cidade que sofre
Sob o signo do desperdício em tempo de miséria
Eu sou o pior que poderia acontecer à um corpo:
Apodrecer de amor enquanto matéria.

(Data: 09/04/2006)

4 de dezembro de 2009

Estante Virtual

Sabe aquele livro que você quer muito e não encontra? Ou sabe aquele livro que está caro demais na livraria e que de repente em um sebo ou livreiro sairia com um preço bem melhor? Você pode encontrá-lo na Estante Virtual.

Eu explico: Estante Virtual é um site que reúne sebos e livreiros de todo país que disponibilizam ali, com um clique, todo o seu catálogo de livros para venda. Basta procurar por autor, nome do livro ou cidade para consultar o que há disponível. E se o livro estiver em um sebo ou livreiro de outro estado, ele envia por correio. Não é uma maravilha?

Na semana passada me cadastrei no site e comprei dois livros: Um do Mario Quintana e outro do Drummond que reúne DEZ livros do nosso poeta em um só. Tudo me custou apenas 22 reais! Voltei pra casa feliz (o livreiro morava perto de mim e fui lá buscar, sem pagar entrega), satisfeito e com imensa vontade de espalhar essa boa aos meus visitantes.

Portanto, fica a dica para quem gosta de ler: www.estantevirtual.com.br para encontrar os livros que queremos a um preço camarada e sem precisar pegar chuva (hoje chove torrencialmente no Rio).

Obs: Este post é voluntário pois simpatizei mesmo com o site, não é propaganda disfarçada não... :)

16 de novembro de 2009

Aqui na minha mão


Acalmo meu coração perante tudo que é desesperador. Sigo o passo-a-passo como quem desistiu e assim tudo pesa menos, porque a hora passa, os dias passam e as situações se modificam. Hoje vi num blog a foto de uma mulher passeando de balão e isso me lembrou de tanto sonho que voei até o passado e lembrei de papéis-promessas que te dei, como convites, nos quais garantia a certeza de pequenas felicidades, como essa de voar de balão no cair de uma tarde escandinava. Agora, depois do temporal, cheiro de chuva na casa, acho graça e terno ter planejado tudo isso e ter isso pra lembrar quando você nem mais tem moradia no meu afeto, quando você já nem é convidado no meu balão. É que as vezes um fio de lembrança corre os meandros da gente e nos relembra simplicidades de chorar, como a paisagem que se vê quando se está num balão; coisa que não sei como é literalmente mas que só de imaginar posso saber, sabem como é? Como beijo bom, como sexo com amor, como algo que se sente mesmo sem ter feito. Por isso tenho medo e ao mesmo tempo me jogo de novo neste abismo chamado amor. Porque sinto-me condenado a uma vida assim, com amor, com risco, com desejo, com sonhos, com balão cruzando a tarde e passeando em meus pensamentos de felicidade. Agradável é ser pedido em casamento e, de súbito, saber-se amado e confirmado no papel. Tão demodé, uns vão dizer... E de novo a coisa do papel-promessa, da firma reconhecida, da história escrita, confirmada. Porém, ao contrário do jogo do bicho, na vida não vale o escrito, o que fica é sempre o sentimento, esse balão que carregamos estrada afora, movido à gás-amor, doido por um co-piloto que nos altere a rota. Mas tenho irresistível queda por escrever miudezas e jurar promessas. Sou do tempo antigo e confesso que subtrai uns papéis-de-carta de minha irmã pelo simples impulso de achar poético cheirinho de morango e balões voando numa folha para declaração de sentimentos. Agora sei porque os escondidinhos (coleção específica dos papéis-de-carta) faziam declarações e se amavam sem mostrar o rosto. Não era vergonha do amor, era pra não especificar a cara dele. E só por isso ama-se o novo com novo amor, impossível de ser igual como foi com o anterior. Assim corremos o risco de ser bem melhor e de alguém topar andar de balão numa tarde dessas.

9 de novembro de 2009

Berenice

Berenice não sabia o que fazer da vida.
Até que, por conta do acaso, conheceu Valdir no 474.
Apaixonou-se. Trocaram números. Celulares.

Contava para as amigas: Eu nem pego esse ônibus! Nunca peguei! Mas naquele dia tive que passar na casa da Dita e pronto, bingo, aconteceu! Tô amando, ele é o homem da minha vida! Ai, isso é coisa do destino, só pode!

Berenice telefonou, Valdir atendeu, marcou encontro, comprou cerveja, dançou pagode, comeu churrasco. Comeu Berenice em todas posições naquela madrugada de Sábado para Domingo no Motel Xaxaxa. Ela preferia o frango assado, gemia mais. Ele preferia cachorrinho, dava tapinhas.

Berenice encantou-se.
Contou para as amigas: Valdir é demais, essencial, ele é tudo! Passamos o sábado mais incrível de toda a minha vida! Foi o dia mais feliz da minha vida! E o sexo, ai... Valdir é especial na cama!

E deu risadas joviais com as amigas que acompanhavam acaso tão bonito.
Berenice tinha só 21 anos, muito nova para achar que um dia dentro de 21 anos era o dia mais feliz de toda sua vida para sempre, mas só ela que não sabia.

Berenice ficou pensando em Valdir.
Berenice telefonou, Valdir não atendeu. Valdir sumiu.
Berenice anda só e pensa em se matar.
Valdir nunca acreditou nesse negócio de destino não.
E Berenice continua acreditando que ele perdeu o celular.

Acha que é destino até hoje.

6 de novembro de 2009

Acumulado

Mais um ano termina
Não agir é uma forma de ação
Vejo planos em ruínas
E mando recados diretos
Porque cansei do sim e do não

Não quero deduzir
Não quero esperar
Não quero seduzir
Não quero controlar

Deixo que os dias batam com as suas portas em minha cara
E fico com essa cara de quem não sabe o que fazer
Dizem que o mundo já saiu da crise
Mas em mim ainda está a acontecer

Quero deixar a casa cair
Pra ressurgir desse escombro
Cansado disso tudo, vou tirar o mundo dos ombros

A alegria do palhaço
É ver o circo pegar fogo
E por isso está tudo certo
Tudo é caminho aberto
Mesmo quando a rota desvia
E nos põe neste estado de nostalgia

Querendo uma felicidade ultrapassada
Café no bule que passei de manhã
E requentei à noite, pois havia marasmo
E impaciência sã

Garantias de fundos
Aposentadorias privadas
Proper jobs
Ações, bens, imóveis e carros
Tudo isso é ouro falso
Lustro errôneo do capitalismo furado
Nada disso preenche minha sede de felicidade
No máximo traz estabilidade pra fingir que somos estáveis
E pra pagar as contas no fim do mês

Olha só o que a vida te fez
Agora tens sonhos de classe média
E não os difere de pesadelos

Grande loteria o destino
Acumulou, de novo.
É hora de se jogar.