9 de junho de 2011

Frente Fria

Hoje amanheci anoitecendo
E agora que a tarde chegou,
O tempo mudou e escureceu

Meu acordar-breu fez sentido
Hoje foi um daqueles dias
que merecia ser dormido.

6 de maio de 2011

Encontro com Caeiro e Álvaro de Campos

Vieram comigo hoje no ônibus Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Nos encontramos por acaso no Centro quando eu saía de minha aula matinal. Me apertaram num banco aonde só cabem dois e viemos, os três juntos, no trajeto Presidente Vargas - Copacabana. Passamos a roleta juntos, mas o sonolento trocador nem se deu conta. No caminho, Caeiro me mostrava os Jardins de Burle Marx do Aterro do Flamengo e chamava minha atenção para a nitidez do sol do dia de hoje e esta natureza brutal que há no Rio de Janeiro, com especial atenção para quando o ônibus fez a curva em frente ao Pão-de-Açúcar. Foi quando ele me disse: "Graças a Deus que as pedras são só pedras..." - apontando para o cartão postal. No que concluí: E as flores são só flores e os rios são apenas rios.... Álvaro, com seu pessimismo mesmo em dia de sol, não perdeu a ironia e completou: E o Rio é apenas o Rio...

Nem sei por qual motivo vieram me acompanhar. Depois deste pequeno diálogo os dois silenciaram e, cada um enroscado num braço meu como irmãos saudosos, contemplamos o caminho juntos. Dei de pensar coisas quentes, posto que fazia sol e sorri ligeiramente satisfeito para Caeiro, que sabe que compreendo o que ele me ensinou desde quando nos conhecemos. Álvaro me fez ter súbita tristeza pelo mesmo sol, do mesmo dia, da mesma hora, súbita tristeza, essas sem razão, sem sabermos de onde vem, apenas uma lucidez acentuada pela realidade melancólia de Álvaro. Confesso que tive vontade de chorar, mas silenciei para não constranger Caeiro.

Álvaro baixou seu Rayban anos 60, me olhou por cima da armação dos óculos e disse: "Sou inteligente, eis tudo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, e há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."

Chegou o ponto onde desço. Caeiro me deu um beijo na testa e um abraço longo. Álvaro acenou com a mão e voltou a ler seu jornal. Da rua, acenei um até logo para eles, que me olhavam pela janela do ônibus e gritaram antes do coletivo partir: o que for, quando for, é que será o que é!

Sorri feliz e triste, assim mesmo, como dia com chuva e sol. E voltei pra casa menos nublado.

24 de abril de 2011

Ô Ósto!

Meu avô, que fazia piada de tudo, morreu num domingo de páscoa.
Amparado por duas crianças, foi sentando até o coração parar.
Infarto ful-mi-nan-te.
Tenho certeza que quis pregar peça nesse papo de ressureição.

15 de abril de 2011

Rimite

Eu ia escrever um poema
mas a rinite consumiu
minha rima
minha rimite.

Atchim!

7 de abril de 2011

Triste Realengo, triste realidade

Tão chocante quanto a atitude do criminoso Wellington, que na manhã desta quinta-feira assassinou brutalmente diversas crianças de um colégio de ensino fundamental em Realengo, é a forma como a mídia e a sociedade brasileira tratam o caso. O jornal da noite da TV Globo (Jornal Nacional), o de maior audiência do país, abre o noticiário com a repórter âncora ao vivo no local do crime, o bairro de Realengo. Subúrbio pobre da Zona Oeste, este bairro jamais obteve tanta atenção midiática como neste dia - porém hoje, é claro, pela audiência, vale a pena que a equipe do jornal se desloque para, in loco, tentar fazer com que sintamos cheiro de pólvora no ar. Eles sabem, o ibope depende do drama, afinal a casa é craque em produzir novelas (drama-turgia) e eles querem fazer da tragédia uma minissérie de um capítulo, de trinta minutos e por conta disso vale tudo.

A reportagem inicia em tom de polêmica, com reconstituição e apelo. Mães desesperadas gritam por seus filhos em cena desnecessária de tão consternante. Muda a cena. Um vídeo de um transeunte que circulava pelas redondezas entra como um dos principais e mais fiel registro do crime: crianças que saem correndo de dentro das escolas ensopadas em sangue enquanto ao fundo uma mãe grita por seu filho. O "cinegrafista amador", que eu vejo como um "masoquista profissional", não se comove com o acontecimento, o que ele quer é registrar o momento, não larga o aparelho celular, não indica nenhuma reação de possibilidade de socorrer as vítimas que saem sem rumo, com sangue. Cruel, ele persegue as crianças e as filma sangrando na calçada enquanto ao redor o mundo cai. O que será que pensava este cidadão neste exato momento? Certamente pensava que iria ganhar muito dinheiro pela veiculação das imagens,ou pensava que ia ser chamado de Big Brother da tragédia, não apagava sua câmera, enquanto crianças morriam ao seu redor. Medo.

Eu, morador desta cidade, que durante todo o dia já estava abalado com o acontecimento, sinto o estômago remoer. Quase não creio que este tipo de cena está sendo transmitida para todo Brasil sem o menor pudor. As crianças estão sendo alvejadas mais uma vez, desta vez para todo Brasil. Estão no centro do palco ensanguentadas enquanto o jornal narra a cena. O drama prossegue. A TV mostra agora cenas feitas por outra pessoa com outro celular - todo mundo tem um no bolso hoje em dia, o que nos torna masoquistas em potencial, voyeuristas enfermos! Desta vez podemos ver o assassino morto na escada, crianças baleadas sendo retiradas no colo pela população. Desespero sendo transmitido de maneira cinematográfica pela maior emissora do país, no jornal de maior audiência, sem pudor algum. O que busca a Rede Globo e o editor-chefe William Bonner com isto? Quer nos convencer que a tragédia foi mesmo trágica? Quer transformar a vida num grande reality-show? Quer que sejamos personagens ao vivo de suas novelas? Quer audiência a qualquer custo?

Wellington vira celebridade por um dia. Precisou levar 11 crianças consigo para que o notassem apenas UMA vez na vida. O que busca mesmo um jovem que se sente excluído, em uma sociedade altamente excludente, ao cometer tal atitude? Sabendo que cometendo este tipo de crime, com esta magnitude, ia mesmo ser noticiado para todo o sempre. Consegue o seu feito e multiplica seus ideais, porque a TV retransmite. E a sociedade não consegue enxergar nada. Comovida ainda, sob o efeito do acontecido, limpamos os olhos e choramos com as mães, buscamos um rótulo para Wellington. O governador diz: um animal, um psicopata. Reafirma, também ao vivo, a nossa falha enquanto sociedade. Neste momento, comovidos, queremos rótulos. Mas amanhã é sexta-feira e ninguém questionará as armas, ninguém lembrará da miséria do bairro de Realengo, da sua falta de perspectiva, ninguém saberá se as crianças desta escola estão realmente sendo educadas, ninguém atacará o mal pela raiz. Queremos soluções rápidas, registros online, ao vivo, agora, sem refletir. A sociedade aceita o darwinismo social e amanhã o ideal será ainda vencer, vencer e vencer. Competir, competir, competir. Sem afeto, sem amor, sem reflexão profunda. A TV mostrará mais drama, buscará imagens de funerais, de mães em desespero, o governador chamará mais uma vez o criminoso de animal e psicopata e nada disso mudará a sociedade enquanto ela não olhar pra si e perceber quem somos, aonde estamos e para onde queremos ir.

Foram duas as tragédias de que padecemos hoje. Uma todos notaram, a outra passa sem que muitos a percebam.

17 de março de 2011

Gato e Sapato

Me persegue a literatura. Uma máquina ligada 24hs por dia fazendo comentários e pedindo que os coloque no papel. Estou na padaria ela vem, quer que eu descreva cheiro de pão quente. Estou na praia ela quer sabor de queijo coalho. Estou no momento mais sublime, ela escreve uma peça, edita um livro, roda um filme. Não tento fugir, sequer controlar. Ela quer rimas, textos, prosas, crônicas. Ela quer ser digitada. Doesnt matter the language. No importa la lengua. Não importa mesmo. Ela quer que eu coloque letras no papel, frases soltas. Me domina a literatura. Eu digo chega, ela vem com mais. Rouba meus pensamentos em momentos cruciais. Não a condeno, é ela quem me salva do mundo, ela quem me transforma no que sou. Mais potente que torpedo, mais eficiente que twitter, sem limite de caracteres, ela vem ilimitada, fruto desta minha ordem desordenada. Resultado de eu ser cidadão 2.0, conectado, online, vivo, aqui, agora, a literatura me devora.

Just the two of us

De certezas abri mão
e da espera e pré-requisitos
fiz acertiva pergunta.

Você disse: Sim, quero!
Eu, que quis sempre, agora quero eterno.

1 de fevereiro de 2011

Picadinho do tempo calado

Sigo, sem desespero, como se seguisse os passos de uma coreografia. Apuro as coisas, me emociono menos. Queria ter gritado e chorado de felicidade e fiquei boquiaberto apenas quando tem surpresa boa. Quiça são os trinta, minha mente resmunga. Observo o mundo, faço anotações mentais, planejo um livro, um filme, uma cena, mas a vida é mais rápida e acabo ilhado, ilha de edição falida. E acho graça das velhas de Copacabana discutindo por serem velhas e terem direitos de velhos assegurados por lei. E depois sou eu, jovem ainda, a discutir com o motorista do ônibus. como se eu fosse uma velha. Metade das coisas no Brasil se consegue mediante discussão. A outra metade com processo.

Durmo, acordo, o mundo renasce toda manhã para meu ácido registro. Me canso desta cidade, deste país, talvez tenha cansado do mundo, mas jamais me cansarei das pessoas, por isso vale a pena renascer toda manhã, como a manhã, como amanhã renascerei para ser de novo eu, mas ser também outro. Porque o excesso de Fernando Pessoa me tornou muitos, porque as doses de Clarice me tornaram fragmentado. Saramago e seus detalhes me encantam e me irritam e tudo isso vem pra escrita. Por ter viajado muito fiquei menos brasileiro e nem por isso sou cidadão de outro país. Culpem a globalização, sou fruto dela. Fruto do real forte, fruto das compras parceladas e da banda-larga. Odeio o motorista que grita Vaaaaan pro jacaréeeee na Presidente Vargas.

Não tenho um estilo, não tenho planos, não tenho ansiedade adolescente. Vai ver a gente sente mais quando é adolescente. Devem ser os hormônios, deve ser o mundo. Deve ser eu. Vai ver era pra eu estar dormindo. Vai ver tenho andado acordado demais. Vai ver quero ver três anos em um. Vai ver vai dar tudo certo. Vai ver vai dar. Por ora sabemos apenas que tudo há de ser como será. Não se espera o futuro, o futuro não nos espera. Espero que sim, que ele esteja lá na frente com sua alma de menino que é disso que é feito nosso amor, é disso que é feito o amor, dessa sensação de ser criança todo dia e ainda poder fazer travessuras mais prazerosas ainda, posto que nosso corpo permite.

No fim, o amor nos salva de nós mesmos.

3 de dezembro de 2010

É tudo alma gêmea!

Consciente da nova descoberta, sinto-me obrigado a dizer-lhes que alma gêmea não é nada disso que disseram. Um par igual? Jamais. Antes um calçado diferente ela é. Nesta brutal diferença é que está a resposta. Tema de revistas para adolescentes, o assunto é ainda pouco esclarecido e vaga em mentes adultas sem melhor elucidação. Vagava! Posto que agora vos explico: é neste contraste que assusta que mora a outra metade do limão. Laranja não porque amor só é doce assim no cinema. Na vida, amor e calmaria não combinam. Até amizade tem faísca! Se te encontras pois em situação de absoluta estabilidade, dessas que parece que o dia repetiu de tão igual, desconfie e exija uma dose de conflito. Está previsto no código do consumidor. Uma pitada de ciúme também sempre cai bem, levando em consideração, é claro, que você não é uma pessoa louca, que não vai chegar em um restaurante ensandecido (a) inventando motivos que não existem para fazer cena. Atenção, isto acontece muito e, portanto, devemos ter cuidado pois trata-se de outro tema, de patologia, e não do que falamos aqui.

Já vivi amor tranquilo. Era bom, mas era mentira. Acabou sem dizer adeus. Quer final mais murcho? E eu pensava que era alma gêmea. Então, se o seu par não te agride, não te trata mal, não te proíbe de ser quem você é, te dá espaço, às vezes até caga um pouco pra você, te ignora durante o período em que está entretido com hobbies que adora e tem uma dose de egoísmo, não desista, é assim mesmo, provavelmente ele te ama mesmo, mas ama a si também, o que é perfeitamente aceitável, o que é totalmente desejável, aliás. Aceite que amor é assim. Assita mais filmes de Woody Allen e esqueça as comédias românticas de Hollywood, as novelas do Manoel Carlos e as músicas pop falando deste amor chato que cola no seu pé. Já vivi amor que cola, amor-super bonder, difícil desgrudar sabia? Depois de um tempo ainda fica aquela raspinha de cola nos dedos incomodando... Horrível.

Portanto, tolere mais, assim você chegará adiante acompanhado e sim, feliz sim. Porque há felicidade em vencer desafios e estar sempre equilibrando a balança. Só não vale amor que bate, amor que mente, amor que trai, amor que não beija, que não goza, amor que não é amor, que é doença. Só não vale amor que não seja, antes de tudo, amor próprio, o resto, é tudo alma gêmea minha gente.

16 de outubro de 2010

Sensipla

O bom do nosso amor
é que sempre me desafias
a ser quem nunca fui,
nem cogitaria

Concluo que o queres
é me ter inédito
e surpreendente
a cada novo dia