21 de fevereiro de 2008

A mulher mais feliz do mundo


Quando achei o diário da vó Luzia, o dia não era nada especial, era início de madrugada, eu estava ajudando o pai nas suas confusões-consequências de sua doença. Não se recordava aonde tinha enfiado o dinheiro que havia sacado para pagar o aluguel. No meio da procura o pai puxou uma bolsa, herdada por ele quando o meu avô morreu, da qual eu nem tinha conhecimento.

Abri a bolsa e fui levado pelo tempo. Dentro dela velhas fotos de família me colocavam num estado nostálgico novo, aonde eu nunca havia estado, era impossível, justamente pelo fato de ser jovem e nunca ter conhecido bisavós, afinal os tempos eram outros e as pessoas morriam cedo. No meio de tudo isso, no meio de cheiro de mofo e traças famintas pra comer o passado, eis que surgem os diários da vó Luzia.

Um de 1945 quando ela ainda era jovem e estava flertando com o rapaz bonito que se chamava Lenine e que, anos depois, veio a ser tornar meu avô. Página por página meu coração se enchia de amor e os olhos de lágrimas. A primeira coisa que reparei foi: A vó tinha a letra parecida com a minha! A vó tem uma densidade emocional tão linda que me identifico nisso, a vó era poesia e ninguém tinha me falado nada! Talvez fosse esse um dos milhares segredos de família, comuns a todos nós.

Eu, que quando tinha idade pra discernir as coisas só tinha visto a vó doente, numa cadeira, catatônica e sofrida, refiz a imagem da vó em minha cabeça e chorei pelo fato do tempo, essa inexorável lembrança dos nossos limites, ter me entregue uma imagem caduca de Luzia. Porém este mesmo inexorável tempo agora me devolvia uma nova avó, uma avó luzindo, uma avó Luzia poética, inteligente, apaixonada, com sonhos, saudável, linda, de letra redonda, de letra muitíssimo parecida com a minha!

Contava em suas páginas sua ansiedade para enfim viver todas as coisas com que sonhava com o tal do rapaz bonito que ela gostava. E uso rapaz bonito aqui pois ela o descrevia assim.

"Rio, 1 de Setembro de 1945. Faz um ano que estudo piano. Hoje que começo a escrever neste meu tesouro, já tenho um grande amor, sim um amor que no dia 20 de dezembro de 1946 completa 6 anos. Adoro este rapaz cujo o nome é Lenine"


Não sabia a Santa Luzia que estava não só escrevendo um diáro - o qual nomeou lucidamente de TESOURO - mas sim sua trajetória de vida. Anos depois, e muitas páginas no caminho, revelando toda as peripécias boas e ruins inerentes ao amor, veio a se casar com o tal rapaz. Lenine deixou o posto de rapaz bonito para virar seu marido, seu maridinho tão sonhado, meu avô Lenine, pai do meu pai, semente do que hoje sou.

"Rio, 8 de Dezembro de 1947 - Hoje é dia de N.S. da Conceição. Sou a mulher mais feliz do mundo. Dia 8 de Dezembro às 22 horas Lenine ao meu lado na mesa, na presença dos meus e na presença dos seus pediu-me em casamento. Um tanto nervoso e vermelho falou com muita segurança. As suas palavras tocaram no meu coração. Sou tão feliz, obrigado meu Deus!"


Nunca mais vou querer a imagem da vó em seus momentos de agonia, fruto dos acontecimentos da vida. Hoje, sorrio com a nova avó Luzia que ganhei. Uma mulher que embora tenha sofrido mais de 15 anos com uma doença dolorosa, foi um dia a MULHER MAIS FELIZ DO MUNDO!

Assim como a vó em seu primeiro texto do diário, também já tenho um grande amor e agora sei exatamente de onde herdei este estado poético com o qual olho o mundo e este amor tão grande. É que eu sei que um dia eu vou ser O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO!

Um comentário:

Beatriz disse...

sem palavras com sua maneira de ver e conseguir retratar a vida.
vc é um artista. nato. e ponto

beijo!