Negrinho do Pastoreio (Poema para Marco Feliciano)
Feliciano nega suas raízes Crespas, agora alisadas, Negras, agora maldição Seu cabelo é síntese do que tenta esconder, tentando encontrar redenção num pote de henê
Feliciano quer deixar de ser... Sua mãe, cara de bolacha brasileira, Não nega a étnica mistura. Mas seu espelho reflete, diariamente, o tamanho de sua tortura. Vaga sem entender quem é E se esconde sob o título de pastor. Grita coisas desconexas na igreja, mas à noite padece de desespero, Insônia e dor
Feliciano tem raiva dos gays, Mas faz a sobrancelha! E tem raiva da mulher divorciada E da família monoparental E de tudo que lembre a fragilidade do seu reflexo. De tudo que revele sua problemática com sexo
À noite, quando se depara com o monstro que o devora Feliciano chora, ora, mas Deus finge não ouvir.
Quando sonha, é pesadelo Chuvas de pirocas e grelos o perseguem em uma tribo negra Acorda sobressaltado, faz o sinal da cruz e agarra a bíblia
Corre no armário e saca a fantasia de pastor Um terno, seu único meio de ser tratado como "doutor"
Tenho pena deste homem, Que distorce todos os princípios de amor que nos foi ensinado E vive uma vida de dublê, "Fiel perseguidor de viado"
Mas a verdade não vai calar: Feliciano, está na cara, Não adianta alisar.
Seu DNA é de negro Sua auto-maldição, degredo Salve-se antes que acabe o tempo, Afaste-se, antes que desabe o templo